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Artigos > Entrevistas e Teses > Entrevista com Ms. Edgar Indalecio Smaniotto
Entrevista com Ms. Edgar Indalecio Smaniotto
Publicado por Templo em 17/9/2007 (5685 leituras)
Edgar Indalecio Smaniotto, nascido em Marília (SP), em 1979, onde reside. Formou-se professor do ensino fundamental (CEFAM), técnico em contabilidade (CEETEPS), filósofo e mestre em ciências sociais (UNESP). Defendeu em março de 2007 sua dissertação de mestrado: UMA ANÁLISE DO CONCEITO ANTROPOLÓGICO DO “OUTRO” NA OBRA DO ESCRITOR AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR. Marília, SP: UNESP / FFC, 2007, 144 pp. Sob orientação da professora Dr.ª Christina de Rezende Rubim (Disponível neste site)
Atualmente colabora com as revistas Scarium Magazine, macroCOSMO.com e com o Jornal Graphiq com resenhas mensais. Com especial atenção também se dedica a astronomia amadora e a crítica literária.

A Tese de Edgar se encontra disponível para download aqui no Templo.
Você pode baixar clicando aqui ou acessando o link a seguir para mais informações: Tese de Edgar Indalecio Smaniotto - UMA ANÁLISE DO CONCEITO ANTROPOLÓGICO DO “OUTRO” NA OBRA DO ESCRITOR AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR.

Templo - Como você se interessou por antropologia?
E.I.S. - Minha formação inicial é em filosofia (UNESP-Marília), mas sempre fui um leitor assíduo de livros de divulgação científica, muitos dos quais tratavam de temas ligados a antropologia física. Quando terminei a graduação em filosofia, resolvi fazer alguns cursos na UNESP como aluno especial, e por pura curiosidade, decorrente daquelas leituras de livros de divulgação científica, resolvi assistir algumas aulas de antropologia.
Este curso era ministrado pela professora Dr.ª Christina de Rezende Rubim, que estava trabalhando em suas aulas com a coletânea de artigos Retoricas de la Antropologia, organizada por James Clifford e George E. Marcus (Espanha / Madrid: Ediciones Júcar Universidad, 1991), em torno das discussões acerca de uma etnografia pós-moderna e os problemas relacionados ao valor epistemológico do trabalho de campo (discussão presente no 2 capítulo de minha dissertação de mestrado - “ENTRE O RELATO DE VIAGEM E A MODERNA ANTROPOLOGIA” ).
Enquanto participava das aulas lia as obras de diversos antropólogos: Clifford Geertz, Franz Boas, Bronislaw Malinowski, A..R. Radcliffe – Brown, Marcel Mauss, Shalins, Pierre Clastres, Eduardo Videiro de Castro e etc.
Apaixonei-me por esta área do conhecimento e resolvi seguir minha carreira Universitária fazendo mestrado em Ciências Sociais, com área de concentração em antropologia.

Templo - Quem é Emílio Zaluar? Nos fale um pouco sobre ele e sua obra.
E.I.S. - Augusto Emílio Zaluar foi o típico intelectual brasileiro do século XIX, transitava por diversas áreas do conhecimento, escrevia poesia e ganhava a vida nas redações de Jornais ou como mestre escola (professor). Seus poemas e contos não tiveram maiores repercussões na história de nossa literatura, estando entre aquelas centenas de poetas menores que acabam por se tornarem nota de rodapé na história dos movimentos literários ou de grandes luminares da literatura nacional.
Mas três de suas obras ainda constituem material de interesse e pesquisa, Peregrinação pela Província de São Paulo 1860-61 (São Paulo: Ed. Itatiaia, USP, 1975) é um interessante documento histórico sobre o inicio da industrialização e da cafeicultura em São Paulo.
Exposição Nacional Brazileira de 1875 (Rio de Janeiro : Typ. do Globo, 1875), documenta a “síntese mais brilhante do progresso científico e material do país” no período Imperial. Ambas ainda despertam interesse entre os historiadores. O “brazileira” no título é com Z mesmo.
Por fim temos o romance científico O Doutor Benignus (Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994), que é considerado o primeiro romance brasileiro de ficção científica e objeto de estudo de minha dissertação “UMA ANÁLISE DO CONCEITO ANTROPOLÓGICO DO “OUTRO” NA OBRA DO ESCRITOR AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR”, e também muito lido pelos fãs de ficção científica.

Templo - Como surgiu a idéia de fazer uma tese baseada em um livro desse autor e como ele se encaixou em sua área de interesse?
E.I.S. - Minhas áreas de interesse sempre foram múltiplas, sou do tipo que lê de tudo um pouco, e quando comecei a assistir aulas e ler os antropólogos já tinha lido “O Doutor Benignus” de Zaluar. Mas nunca tinha pensado em tornar o livro objeto de pesquisa, entretanto enquanto acompanhava as aulas da professora Dr.ª Christina de Rezende Rubim sobre antropologia e lia os antropólogos percebi que muitas das discussões presentes na antropologia estavam presente na referida obra de Zaluar, comentei com a professora Christina a respeito do livro, ela se interessou pelo mesmo, então transformei este interesse em um projeto de pesquisa e entrei na pós-graduação em Ciências Sociais pela UNESP, tendo a professora Christina de Rezende Rubim como minha orientadora.

Templo - Sua dissertação é focada no conceito antropológico do outro, de que se trata esse conceito?
E.I.S. - O “outro” é aquele que não faz parte de nosso próprio grupo de auto-identidade, este “outro” pode ser descrito de diversas formas pela cultura que esta “olhando” para ele. O antropólogo é justamente o cientista social que tem por objeto de estudo “outro”.
Em um primeiro momento o antropólogo era oriundo de algum país europeu e o “outro” era um povo nativo da América, África ou Ásia. Os quatro “pais” fundadores da antropologia deram origem a disciplina com estas característica. Franz Boas (1858-1942), dedicou-se a pesquisar os inuítes e os kwakiutls da costa noroeste americana; Bronislaw Malinowski (1884-1942), realizou um trabalho de campo de dois anos entre os trobriandeses; A..R. Radcliffe – Brown (1881-1955), realizou trabalho de campo nas Ilhas Andaman, a leste da índia; Marcel Mauss (1872-1950), um antropólogo de gabinete escreveu sobre da dádiva, toteismo e troca a partir de relatos etnográficos de terceiros.
A antropologia desenvolve-se assim abarcando cada vez mais os diferentes “outros”: africanos, árabes, camponeses, populações urbanas e mais recentemente até mesmo os próprios cientistas, principalmente nas obras do antropólogo da ciência Bruno Latour. Minha orientadora, professora Chistina de Rezende Rubim, por exemplo, fez sua tese de doutorado tendo por objeto de pesquisa os próprios antropólogos, que se tornaram também um “outro” a ser compreendido pela antropologia (Antropólogos Brasileiros e a Antropologia no Brasil: A era da Pós Graduação. Campinas: Unicamp. Tese de Doutorado. IFCH / Unicamp, 1996) .

Templo - Os alienígenas da obra de Zaluar são uma representação metafórica do conceito antropológico do outro?
E.I.S. - Sim, os alienígenas são metáforas para diversos outros, por assim dizer. Primeiramente o alienígena aparece como um ente superior, quase um anjo ou um ser espiritual, ele é assim representado em vários textos de ficção científica, o próprio “Doutor Benignus” de A . E. Zaluar, no espiritismo e na corrente mais esotérica da ufologia. Este tipo de representação do alienígena, é uma forma de buscar no “outro”, tecnicamente superior, o reconhecimento moral daqueles mitos culturais constituídos. Um reconhecimento que antes era buscado na figura dos deuses.
Em alguns casos os alienígenas aparecem como seres enigmáticos, incompreensíveis para o homem comum, e ao mesmo tempo uma ameaça. Uma representação metafórica daquele outro que é o estrangeiro, incompreendido e que ameaça, com seus novos valores, a moral local.
Minha análise se concentra em obras literárias, mas pode facilmente ser usada para entender as religiões que substituíram os deuses por alienígenas e a ufologia de forma geral.

Templo - Quanto à mitologia de uma forma geral, como ela se relaciona com a antropologia?
E.I.S. - A antropologia trata da mitologia, mas não é uma ciência da mitologia. Os antropólogos que se dedicaram a estudar povos nativos em geral estudam a mitologia destes povos. Em meu texto: Etnografia dos Povos Kachins: Seus Rituais e Mitologia (http://www.templodoconhecimento.br2.net/paginas/mitologias/birmania/textoensaio/etnografia.htm), disponível no site do Templo, onde apresento as pesquisas que Edmund Ronald Leach realizou sobre a mitologia dos Kachins (Sistemas Políticos da Alta Birmânia. Trad. Antonio de Pádua, Geraldo Gerson de Souza e Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996).
Para quem quer se aprofundar no assunto, recomendo a série Mitológicas de Claude Lévi-Strauss, publicadas no Brasil em edições de luxo pela Casac e Naify, são quatro tomos, esta obra é em grande parte sustentada por estudos feitos com povos nativos do Brasil.

Templo - Como pode ser visto, na mitologia, o Conceito de "Outro"?
E.I.S. - A mitologia é uma forma de explicar eventos naturais, dar um sentido a existência humana e tornar o cosmo logicamente organizado, postulando a criação, organização e por vezes o fim deste. Afinal, nas palavras de Joseph Campbell “contamos histórias para tentar entrar em acordo com o mundo, para harmonizar nossas vidas com a realidade”.
Um nível similar de explicação é exigido quando um determinado povo entra em contato com outro povo distinto, principalmente se este tiver uma cultura, ou mesmo uma fisionomia diferenciada (cor de pele), este “outro” pode ser explicado por um mito.
O povo Boniwa, da região do Alto Rio Negro, tem um interessante mito referente ao surgimento do homem branco que é muito ilustrativo. Ao tentar explicar a origem do homem branco este povo se deparou com um dilema interessante, afinal existem homens brancos “bons” aqueles que ajudam este povo (antropólogos, funcionários da FUNAI, médicos e etc.), e homens brancos “maus” (fazendeiros principalmente).
O mito de criação dos Boniwa postula que as pessoas (os próprios Boniwa e os homens brancos “bons”) surgiram em Uapuí Cachoeira, no rio Alari, tendo sido criados a partir da espuma das cachoeiras e corredeiras deste rio.
Um outro mito de criação postula que a Cobra Grande, inimiga dos Boniwa, mantinha relações sexuais com a esposa do Ser Criador. Familiares do Ser Criador avisaram este da traição de sua esposa, então o criador matou com uma flecha a Cobra Grande, mas dos restos desta surgiu pequenos vermes, que foram imediatamente transformados pelo Ser Criador, com fumaça de fumo, no homem branco “mau”. Temos aqui uma explicação do “outro” através do mito.
Mas os Boniwa frente a complexidade ética do homem branco, que por vezes são tão antagônicas, só puderam compreender este dando-lhe duas origens diferentes, o homem branco “bom” foi incorporado ao mito de criação dos próprios Boniwa, já o homem branco “mau” só poderia ser descendente da Cobra Grande, inimiga dos Boniwa. Este é realmente um mito que tenta explicar o “outro”, com toda a complexidade que este representa para a cultura que tenta compreender este “outro”. A antropologia é nosso corresponde a esta categoria de mito.

Templo - Em que pesquisa ou projeto trabalha atualmente? Quais são seus planos futuros?
E.I.S. - Atualmente preparo meu projeto de doutorado, pois pretendo ingressar na pós-graduação (doutorado) no próximo ano. Minha pesquisa se concentrará na recepção que o Darwinismo obteve no Brasil no século XIX, particularmente pelos intelectuais ligados ao IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) tendo por fonte primária de pesquisa as revistas publicadas por este Instituto.
Como sou professor coordenador pedagógico de uma escola do ensino fundamental, na cidade de Marília, busco sempre estar atualizado quanto a teorias educacionais e os problemas pedagógicos de nosso país, portanto acompanho algumas revistas pedagógicas (periódicos acadêmicos e revistas como Pátio Pedagógica, Revista do Professor e etc.), além de ler quase tudo que posso de Lev Vygotsky, Matthew Lipman e Paulo Freire, grandes pensadores da educação.
Também me interesso muito pela chamada literatura especulativa (ficção científica, terror e fantasia), e mantenho uma coluna trimestral na revista Scarium Magazine (http://www.scarium.com.br/), colaboro com alguma regularidade com o fanzine Somnium com artigos, resenhas e ensaios sobre literatura especulativa. As vezes também escrevo crônicas, poesias e contos, já tendo alguns publicados em ontologias e fanzines.
Sou leitor e estudioso de histórias em quadrinhos, atualmente colaboro com um texto mensal para o Jornal GRAPHIQ referente arte das HQs. Outro campo de interesse e estudo a qual me dedico são as ciências espaciais ( astronomia, cosmologia, astronáutica e exobiologia), leio muito sobre estes temas e mantenho uma coluna mensal na revista macroCOSMO.com (http://www.revistamacrocosmo.com/), sempre resenhando livros de algumas destas ciências.

Templo - Agradecemos muito pela entrevista e pela honra de podermos publicar sua tese. Se desejar pode adicionar mais comentários e deixar uma mensagem aos nossos leitores.
E.I.S. - Espero que gostem de minha dissertação, mas não se esqueçam que a linguagem acadêmica neste tipo de trabalho é realmente necessária. Mas esta não é intransponível para o leitor leigo, sendo possível uma leitura bem agradável.
O leitor pode inclusive pular a introdução, que tem um conteúdo mais metodológico, e ir direto para o primeiro capítulo, possibilitando uma leitura mais agradável para aqueles não familiarizados com escritos acadêmicos.
Bom gostaria, se possível, de deixar alguns links para textos meus publicados na internet, espero que gostem:

Mitologia e literatura:
Mitologias vikings e ameríndias encontram-se numa emocionante história de fantasia heróica
http://www.brathair.com/Revista/N10/sombra.pdf

Filosofia da Educação:
Uma trajetória para a Filosofia da Educação Brasileira
http://www.psicopedagogia.com.br/opiniao/opiniao.asp?entrID=475

Política:
Raízes e Formas dos conflitos sociais
http://www.urutagua.uem.br/008/08res_smaniotto.htm

DEPENDÊNCIA E DESENVOLVIMENTO NA AMÉRICA LATINA: UMA OBRA E DOIS PRESIDENTES
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/res1_22.pdf

Histórias em quadrinhos:
Quadrinhos de Heróis Brasileiros, valorização da Arte e Cultura Nacional
http://www.scriptonauta.com.br/artigos/smaniotto_brado.asp
X-MEN: o pecado de ser diferente em uma sociedade de massas
http://scarium.com.br/noficcao/edgar02.html

Ficção Científica:
Demônios no Espaço, em As Luzes de Alice
http://www.scarium.com.br/noficcao/edgar01.htm

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