Bem Vindo Visitante!                                                                                    Direitos Autorais   Política de Privacidade
:: Menu Principal
:: Mitologias e Artigos
:: Parceiros
Nova pagina 1
 
 
 
 
 
 
 
SmartSection is developed by The SmartFactory (http://www.smartfactory.ca), a division of INBOX Solutions (http://inboxinternational.com)
Artigos > Influências > Filmes > Beowulf, Paganismo e Cinema
Beowulf, Paganismo e Cinema
Publicado por Johnni_Langer em 15/12/2007 (2522 leituras)
Prof. Dr. Johnni Langer – Pós-Doutorando em História Medieval pela USP, bolsista da FAPESP. johnnilanger@yahoo.com.br

O poema anglo-saxão Beowulf constitui uma das mais famosas obras literárias do período medieval, tema de muitas adaptações artísticas. Em especial, o cinema contemporâneo vem utilizando essa narrativa para elaborar os roteiros de alguns filmes. O mais recente, A lenda de Beowulf (2007, direção de Robert Zemeckis, roteiro de Neil Gaiman), seguindo a tradição mais comum em filmes populares norte-americanos, adaptou o poema original para um público mais acostumado com jogos de video-games, RPGs e internet do que com a literatura medieval. Os mitos germânicos tornam-se pretexto para uma aventura com muitas acrobacias por parte do herói, cenas de suspense e ação (reforçadas pelos efeitos especiais). O núcleo básico da história se manteve, com o herói Beowulf conclamado a auxiliar o reino dinamarquês de Hrothgar, atacado pelo monstro Grendel e posteriormente por sua mãe, mas as modificações executadas pelo filme foram também numerosas.
A data presumível da composição do poema (que transformou-se na datação da história), o século V, apresenta-se totalmente anacrônica no filme: construções com pedra, castelos com portas levadiças e igrejas, só existiram na Escandinávia a partir do século XII. Também os equipamentos e cenas do cotidiano estão equivocados: as armaduras dos guerreiros são romanas; o penteado e as roupas da rainha remetem a estética operística do século XIX; a mãe de Grendel utiliza um sapato scarpin de salto agulha. O diretor Robert Zemeckis, experiente com filmes voltados para o público adolescente, realizou uma produção que conserva desde estereótipos sobre os germanos (“bárbaros” cujo cotidiano é passar o tempo em festins semi-orgiásticos) até a mescla com imagens tipicamente oriundas da Idade Média Central – de onde provém a maioria dos elementos para o imaginário popular que estrutura os jogos e a arte moderna. Além de outras leituras possíveis de serem efetuadas nesta obra, uma que se sobressai é a inexistência de referências diretas ao paganismo, que estruturava totalmente a sociedade nórdica durante os séculos V ao XI.



O cristianismo está presente do começo ao fim, na figura de sacerdotes e templos. A única referência às antigas tradições religiosas, a cremação de Beowulf, tanto foi influenciada pelo filme Vikings, os conquistadores, quanto é fantasiosa – não existem referências históricas da queima de barcos funerários por óleo queimando. Em síntese, a obra de Zemeckis vai de encontro ao imaginário de jovens que anseiam por uma Escandinávia e por uma mitologia germânica quimérica, existente apenas no cinema que procura vincular diversão instantânea com pouca reflexão crítica e conhecimento sobre o passado.



De maneira oposta, temos uma produção anterior, A lenda de Grendel (2005, direção de Sturla Gunnarsson) que realizou uma leitura mais inteligente do mito. Grendel torna-se mais humano que o poema, ao ser concebido como um troll (gigante) e ao ter um filho com uma habitante da Dinamarca, também durante o século V. A produção mostra-se mais tradicional que o filme de Zemeckis, aproximando-se muito mais dos épicos das décadas de 1960 aos anos 1980, do que filmes com recursos de última geração (como 300 de Esparta), o que concede um caráter mais real e empolgante à narrativa. A datação proposta pelo início da história (século V), com relação ao contexto de figurinos e produção também é anacrônica – as espadas, os capacetes, a estrutura arquitetônica, as vestimentas, tudo remete à Dinamarca do século XI, ao final da Era Viking. Talvez isso tenha sido devido à falta de material para uma reconstituição da Scandia pré-viking, ou ainda, à própria ideologia implícita da produção. O que não deixa de ser uma vantagem para o espectador: desde as filmagens nos belos cenários naturais da Islândia, até a utilização de réplicas de habitações e navios, aproximam em muito da verdadeira sociedade nórdica. Os elementos sociais também foram bem pesquisados, desde o isolamento da profetisa/feiticeira até a convivência entre pagãos e cristãos. No filme, a nova religião é introduzida por um monge irlandês, que convive pacificamente com os adeptos do paganismo. Neste momento, percebemos a grande mensagem e ideologia do diretor para esse período: a Escandinávia medieval foi o produto da interação entre o “velho”, as tradições antigas (representado pela figura de Grendel e sua mãe), e o “novo”, representado pelo filho de Grendel com a feiticeira, no caso, uma metáfora aos novos costumes que penetraram a região com o cristianismo e o feudalismo. Mas não é possível pensar a Dinamarca medieval sem levar em conta a contribuição cultural do paganismo, que é visto de forma positiva no filme, desde as cenas de funerais e sagração de uma nova casa, a excelente caracterização da transição da religiosidade (com o rei utilizando ao mesmo tempo uma cruz e o martelo de Thor) ao desfecho final, onde Grendel ao partir com sua embarcação, invoca o deus Odin. Certamente, um filme mais apropriado para aqueles que já tem algum conhecimento da mitologia, história e cultura germânica.


Referências:

ANÔNIMO. Beowulf. Texto em inglês antigo e tradução para o inglês moderno por Benjamim Slade: Beowulf on Stereoramure, www.heorot.dk Tradução para o espanhol de Luis Lerate e Jesús Lerate (Beowulf y otros poemas anglosajones, siglo VII-X. Madrid: Alianza Editorial, 1986). Tradução para o português de Ary Gonzáles Galvão (Beowulf. São Paulo: Hucitec, 1992) e Erick Ramalho (Beowulf, edição bilíngüe: inglês antigo/português. Belo Horizonte: Tessitura, 2007).
CARDOSO, Ciro Flamarion. Beowulf e as estruturas da Escandinávia pré-viking, 2004. História dos Celtas e Vikings (seção Arquivos): http://br.groups.yahoo.com/group/Celtas-Vikings
LANGER, Johnni. Religião e magia entre os Vikings: uma sistematização historiográfica. Brathair[i/] vol. 5, n. 2, 2005, pp. 55-82. www.brathair.com
LANGER, Johnni. A cristianização dos Vikings e do Norte Europeu. [i]História, Questões e Debates
n. 43, 2005, UFPR, pp. 185-189.
LANGER, Johnni. Aspectos básicos da história e da cultura dos Vikings. História dos Celtas e Vikings (seção Arquivos): http://br.groups.yahoo.com/group/Celtas-Vikings

Navegue pelos artigos
Artigo prévio A Volta Dos Vikings! Resenha Do Filme Desbravadores Indiana Jones e o Templo da Perdição Próximo artigo
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
Enviado por Tópico