A Mitologia, seus usos... e abusos.
Publicado por Daniel_Silva em 28/3/2010 (207 leituras)
A Mitologia, seus usos... e abusos.
Daniel Silva
A mitologia tem a incrível capacidade de se mesclar as mais variadas atividades humanas. Da decoração de prédios a histórias infantis, tanto temas mitológicos como adaptações inspiradas neles são amplamente comuns: se os mais velhos se lembram de Narizinho e do Saci, os mais novos, leitores de turma da Mônica, também tem um saci, ou a Bela e a Fera. Isso implica um entendimento renovado sobre os mitos: longe de funcionar como um corpo de textos antigos e incompreensíveis, eles vem sendo resgatados, reutilizados e resignificadas ao longo da História, e pelas mais diversas figuras, com os mais variados objetivos.
Senão vejamos: o famoso filme de Walt Disney, a Bela e a Fera, encantou gerações de crianças por todo o mundo. Persiste como referência, e um exemplo de sucesso cinematográfico. Sua inspiração, entretanto, vem de um episódio bem mais antigo, o fascinante mito de Eros e Psique: Eros, deus do amor, se apaixona pela mortal Psique. Esta, por sua vez, tem profetizado em seu destino que será amada e companheira de um monstro terrível (o amor) – tal e qual a Fera. O casamento se realiza, mas a relação fracassa num primeiro momento devido a falta de confiança, na qual Psique, insatisfeita porque jamais deveria ver seu amado, descumpre o juramento e termina afugentando-o. No fim, porém, devido a sua pertinácia, acaba encontrando seu amado e vivendo feliz, no Olimpo, assim como Bela e a Fera. Esse tema é igualmente comum na arte desde a antiguidade – há mosaicos, vasos e estátuas retratando-os, e, mais recentemente, o próprio Rodin na escultura “O Beijo” recorda esse episódio.
No Brasil não é diferente. Há várias estórias e lendas tradicionais contadas e recontadas, e utilizadas de maneiras diversas. O Saci, que era usado para assustar crianças, se converte em personagem de livros e histórias – e até escudos de times de futebol. Da mesma forma, a muitas estórias e lendas sobre fé e religião, recorrentes e que se tornaram músicas famosas – Calix Bento, na voz de Milton Nascimento é uma, mas há muitas outras.
Mas quando se diz: “o mito é resignificado” a questão não se esgota no caso do Saci, de fantasma para assustar os pequenos para símbolo de identificação. Há usos variados, e, freqüentemente, trágicos dos mitos. O caso é especialmente forte no caso da mitologia Grega e Romana – ou, com maior propriedade, da Antiguidade clássica. Na Europa, especialmente, os gregos e romanos eram vistos como um dos píncaros do desenvolvimento humano. Conforme se tornavam o racismo se aprofundava, a herança oriental que a Grécia colheu – sem dúvida extremamente rica, variada, e mais próxima de nós do que reconhecemos – foi “purgada”. Os gregos eram tratados como prodígios, ancestrais diretos e com o mesmo corpo de valores que os europeus dos séculos XIX e XX (e também antes, mas nesses séculos isso se exaspera). Naturalmente, revisitamos o passado, e o passado glorioso com perguntas e inquietações atuais – mas o movimento que ora tratamos brevemente foi fortemente marcado pela exclusão e pela eugenia. Mussolini via no Estado Facista o ressurgimento do glorioso passado imperial romano da Itália, assim como Hitler queria o ideal da super-raça ariana. O resultado é que esses períodos, com símbolos, significados e trajetórias particulares e relacionadas ao seu contexto histórico, são simplesmente moldados e deformados pelo futuro ao bel prazer de seus interesses – inclusive políticos.i
Muitas vezes, questiona-se como tal foi possível. A resposta é simples: da mesma maneira que vemos, ainda hoje, na educação, uma admiração enorme pela Grécia e Roma Antigas, ou pela idéia que os criadores desse modelo educacional faziam delas, isso era ainda mais forte na Europa do século XX. A emergência de grupos políticos que utilizavam linguagens e símbolos caros a sociedade em geral era uma forma de criar identidade entre esses grupos e sua agenda, e a sociedade em geral.
A lição que podemos extrair de um episódio como esse é, sobretudo, a seguinte: os mitos são diversos e se prestam aos usos mais variados – especialmente quando há ligações afetivas muito fortes. Cabe a quem lê, assiste, ou escuta, o senso crítico de perceber o que aquilo significa para quem fala, para quem ouve, e quem se beneficia com aquilo – e, de resto, se deliciar com os suculentos episódios da mitologia.
Notas:
iEsse assunto é retomado, no âmbito da História, por Martin Bernal, no artigo A Imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia européia. In: FUNARI, Pedro Paulo de A (org). Repensando o Mundo Antigo. São Paulo: 2003. Textos didáticos nº 49.
| Navegue pelos artigos | |
Deusas e deuses do século XXI
|
|
|
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
|
||||








